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Artigos 16/10/2017 22:51 Fonte: Planeta Folha

50 anos da morte de Che Guevara

Em 07 de outubro de 1967, era apresentado pelas forças militares bolivianas e com apoio da CIA dos EUA o corpo de um homem de 39 anos.  Esse homem era o argentino Ernesto “Che” Guevara de la Serna,  Ele tinha sido executado no vilarejo de La Higuera, a dois quilômetros da Quebrada del Yuro no departamento de Santa Cruz na Bolívia. Seu corpo magro, com cabelos e barbas desgrenhadas foi apresentado ao mundo em uma maca sobre a pia da lavanderia do hospital Señor de Malta em Vallegrande.  Desde então, passaram-se 50 anos da morte de Che, o líder revolucionário que lutou 3 guerrilhas (Cuba, Congo e Bolívia) – e que a cada aniversário de sua morte surge uma avalanche de publicações sobre sua vida e suas lutas.  Algumas o colocando como libertador e herói, outras o acusando de ser opressor e um assassino sanguinário.

Uma coisa é fato: Che Guevara é uma figura que gera sentimentos e muito dinheiro (sua imagem foi apropriada pelo mercado, gerando diversos produtos).  Depois de 50 anos de sua morte, de repente Che esteja rindo em algum lugar dessa contradição, isto é, de ter virado um produto do sistema capitalista. Várias biografias sobre o guerrilheiro destacam seu incrível senso de humor, que não o abandonou nem momentos antes de sua morte. Félix Rodríguez, agente estadunidense da CIA, relatou em diversas ocasiões a conversa que teve com Che antes dele ser morto. Segundo Rodriguez, Che não passava informações táticas e militares para ele, desse modo eles começaram a conversar sobre economia. Rodriguez indagou que Che tinha sido presidente do Banco Nacional de Cuba (espécie de Banco Central e Banco do Brasil ao mesmo tempo) sem ao menos ser economista. Che, então disse: “Você sabe como cheguei a presidente do Banco Nacional? Durante uma reunião, Fidel Castro solicitou em voz alta um economista dedicado, eu prontamente levantei a mão e fui designado, no entanto eu tinha entendido comunista dedicado e não economista”.  Essa história, além de mostrar a capacidade de Che de fazer humor e rir da própria sorte, chama atenção para uma faceta de Che muito pouco explorada: suas contribuições como pensador do desenvolvimento econômico latino-americano.

Guevara foi dirigente do Banco Nacional de Cuba por 15 meses (26 de novembro de 1959 a 23 de fevereiro de 1961) e, posteriormente, foi nomeado ministro da Indústria (1961 – 1965).  Nesse período, Che escreveu sobre economia, sobre Estado e desenvolvimento e sobre a construção de um Homem Novo. Ele faz duras críticas ao modelo econômico desenvolvido pela URSS. Para Che era preciso que Cuba desenvolvesse um modelo de planejamento econômico capaz de proporcionar a industrialização e a diversificação da economia da ilha. A economia, além disso, tinha de obedecer a uma lógica moral e não material.  Caso isso não ocorresse, Cuba estaria saindo da dependência e do imperialismo estadunidense e caminhando para dependência e imperialismo soviético.

Enquanto ministro, Guevara desenvolveu um planejamento quadrienal que tinha como escopo fornecer créditos para indústria local, estimular à diversificação agrícola, diminuindo a monocultura da cana-de-açúcar, nacionalizar empresas e taxar produtos importados. Esse modelo não agradava nem um pouco a equipe de economistas soviéticos que estavam auxiliando membros do Partido Comunista Cubano. Para os soviéticos era necessário estabelecer uma divisão internacional do trabalho no mundo socialista, assim como existia no mundo capitalista. Cuba tinha de se especializar naquilo que detinha maior vantagem comparativa, ou seja, produzir açúcar. A produção de açúcar cubano iria suprir as necessidades dos países socialistas – que garantiriam um preço justo – enquanto a URSS encarregaria de fornecer produtos manufaturados para a ilha, também a um preço justo. De acordo com essa lógica, haveria, portanto, uma complementaridade entre as economias.

Guevara não negava a ajuda da URSS, mas era um marxista que procurava interpretar o Socialismo Real a partir da realidade latino-americana. Ele buscava um socialismo capaz de proporcionar a independência econômica e política do continente. Um socialismo capaz de incorporar o debate de libertação nacional, de desenvolvimento e de descolonização do Terceiro Mundo. A lógica apregoada pelos soviéticos, para Guevara, não proporcionaria emancipação para o trabalhador cubano. Em seus textos e discursos, Che vai defender que era preciso estabelecer um sistema no qual haja uma significativa transferência de tecnologia entre as nações e a racionalização da sociedade em princípios morais e não materiais.

Esse debate entre Che Guevara, defensor de um socialismo alternativo, e os economistas pós-soviéticos, teve seu auge entre 1963 a 1964. A versão de Guevara para sair do subdesenvolvimento foi rejeitada pelo alto comando do Partido Comunista de Cuba. Guevara, sem espaço dentro da ilha, vai em direção a outros países terceiro mundista para levar seu modelo socialista. Em várias ocasiões, durante essas viagens pelo sul do globo, Che questionou o modelo soviético, que, para ele, não tinha comprometimento com a descolonização e nem com o desenvolvimento do terceiro mundo. Tal atitude fez com que os atritos com Moscou aumentassem.  Em 15 de março de 1965, após retornar de Argel, onde acusou a URSS de dar um apoio frouxo e medíocre, Fidel aguardava Che Guevara no aeroporto de Havana com uma proposta, deixar o cargo de ministro e excursionar exportando a revolução. Che Guevara tinha se tornado um pensador incômodo tanto para Cuba quanto para Moscou. Parece que Guevara não entendeu tão errado assim, Fidel precisava realmente de um comunista dedicado e não de um economista dedicado.

Após 50 anos da morte de Che Guevara, o regime cubano ainda continua explorando demasiadamente a imagem do mito revolucionário de Guevara e menosprezando seu lado de teórico sobre modelos de desenvolvimentos econômicos. O sistema capitalista aprendeu a lucrar em cima de sua imagem. Os ideias guevarista veem se diluindo entre trocos e publicidades de mercadorias. E a América Latina ainda enfrenta o problema de superar o subdesenvolvimento e de vencer a dependência, o modelo pró-soviético executado em Cuba teve alguns êxitos, mas não conseguiu desenvolver a economia da ilha.  De repente a função de economista dedicado, que Che estava procurando exercer, é mais necessária que o de comunista dedicado.

Os autores
Isaías Albertin de Moraes

Economista. Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp/Araraquara. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES

 

Leonardo Segura Moraes
Economista. Doutorando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES

 

Para saber mais:
El Gran Debate sobre la Economía en Cuba: 1963 – 1964. Ocean Press: Centro de Estudios Che Guevara, 2006.


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