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Artigos 08/05/2017 22:23 Da Assessoria

Rassemblement – Não sem feridas, a França, com Emmanuel Macron, tenta passar uma mensagem de união

Rassemblement. A palavra rassemblement tem uma forte conotação política na França. Segundo os dicionários, o verbo rassembler significa juntar, agrupar, reunir. Rassemblement carrega o sentido de reunião, encontro, movimento, marcha, agrupamento, mas pode-se dizer que não há uma tradução precisa. Arrisco dizer que rassemblement é para a língua francesa um pouco como a saudade para a língua portuguesa. Seus efeitos de sentido compreendem um desejo de unidade em torno de um ideal coletivo, uma causa maior. É sempre evocada em pronunciamentos políticos, como neste de François Hollande logo após os atentados de novembro de 2015: "Dans cette période si douloureuse, si grave, (...) j'en appelle à l'unité, au rassemblement" (Neste momento tão doloroso, tão grave, eu apelo à "união", aorassemblement).

Emmanuel Macron orientou sua campanha para a presidência da França em torno do ideal de rassemblement contra o extremismo de Marine Le Pen. A candidata nacionalista radical evocava os ares separatistas que têm transitado pelo mundo, com Trump nos EUA ou o Brexit no Reino (des)Unido, resultantes de democracias com feridas expostas, que falham em rassembler. Dessas feridas democráticas, surgem divisões que se expressam em resultados eleitorais apertados, construindo vitórias quase por mera sorte, dentro da margem de erro estatística, como foi com o pleito presidencial brasileiro em 2014, Trump nos EUA ou o Brexit. Essa dualidade intrigante, em realidade, disfarça nuanças consideráveis, já que, a rigor, são as vontades e interesses pessoais que imperam – do que é reflexo a desilusão com a classe política, associada à corrupção e ao benefício de si mesma e, como contraparte, à falta de hábito do eleitorado de buscar o bem de si por intermédio do bem coletivo. Questão que deveria ser tão lúcida: uma sociedade coletivamente justa é melhor para todos que dela compartilham.  

Estamos cansados de saber que uma pessoa sozinha não faz política, mas como não alimentar admiração por personalidades do porte de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ainda que, como qualquer outro, tenha lá suas controvérsias? Ele próprio, porém, não conseguiu rassembler a nação americana e, em boa medida, seu carisma ficou reconhecido pelos estrangeiros. É que nós, das nações mais humildes, talvez ainda sonhemos mais com mundos sem fronteiras, a exemplo do ideal parcialmente utópico da União Europeia.

Nessa bagunça toda, Macron, "o cara de centro", encontrará dificuldades. É acusado por alguns de dançar conforme a música, de estar em cima do muro para agradar direita e esquerda em uma sociedade com ideologias supostamente demarcadas. Antes de julgá-lo, vale a pena ouvir o que ele tem a dizer e buscar compreender em que constitui o seu ideal de rassembler. Talvez, em certo sentido, rassembler não seja necessariamente ceder a qualquer preço (como interpretou Marine Le Pen, ao dizer que Macron se deixará governar pela alemã Merkel), mas carregue, inevitavelmente, um espírito de concessão. E conceder é força ou fraqueza, a depender da posição ideológica de quem interpreta. Conceder é visar interesses pessoais ou coletivos, a depender da posição (e caráter) de quem concede.

Muitas análises têm sido apresentadas sobre o futuro governo de Macron, por isso, o que eu gostaria de compartilhar com o leitor é uma reflexão muito relacionada a um ideal humanitário.  Sem rassemblement, o mundo tende às guerras, será o que queremos? Não estamos falando de um salvador, mas de uma pessoa que, como qualquer outra, tem milhares de virtudes e defeitos que desconhecemos. Jovem, 39 anos, carrega um idealismo que soa até sonhador ("tentar o impossível"). Tem uma sensibilidade, expressa por seu amor à literatura, que falta a muito político pragmático. "A literatura clareia cada situação que encontramos. Ela nomeia a nossa experiência. Ela dá substância a nossa existência. (...) A literatura nos torna disponíveis à emoção do mundo", diz Macron (Fonte: Macron par Macron, Le 1, Éditions de l'Aube, 2017, em nossa tradução). Penso que devemos buscar a sensibilidade para a vida nessa nossa tão árdua tarefa de aprimorar a democracia. Emoção do mundo. Rassemblement. Mesmo a antiga França ainda é uma criança que precisa aprender a rassembler sua heterogeneidade cultural, à semelhança do Brasil.

Érika de Moraes é professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru. Doutora em Linguística especializada em Análise do Discurso, atualmente realiza estágio de pós-doutoramento na Université Paris-Sorbonne, na França.


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